Eleições na França: onde Macron, Le Pen e Mélenchon foram mais votados

Cartazes dos candidatos a presidente da França na cidade de Plaisir, em 1º de abril de 2022. Foto: © Allan LEONARD @MrUlster. CC BY-NC 2.0

Emmanuel Macron e Marine Le Pen vão disputar o segundo turno da eleição presidencial francesa, marcado para 24 de abril. Os dois candidatos obtiveram os melhores resultados na primeira votação, ocorrida no domingo (10/4).

Com todas as urnas apuradas, os cinco primeiros colocados na eleição presidencial francesa foram os seguintes:

  1. Emmanuel Macron — 27,84% (classificado para o segundo turno)
  2. Marine Le Pen — 23,15% (classificada para o segundo turno)
  3. Jean-Luc Mélenchon — 21,95%
  4. Éric Zemmour — 7,07%
  5. Valérie Pécresse — 4,78%

Onde Macron, Le Pen e Mélenchon venceram

A apuração dá uma ideia de como cada candidato se saiu em cada parte da França. O mapa abaixo mostra o presidenciável mais votado no primeiro turno das eleições presidenciais francesas de 2022 em cada departamento — tipo de subdivisão territorial adotada na França.

Em amarelo, estão os departamentos onde Emmanuel Macron obteve mais votos. Em azul, as conquistas de Marine Le Pen, enquanto o vermelho representa as vitórias de Jean-Luc Mélenchon. Veja como ficou:

Mapa mostra o candidato mais votado em cada departamento da França — tanto na França Metropolitana (Europa) como nos departamentos ultramarinos. Emmanuel Macron (amarelo), Marine Le Pen (azul) e Jean-Luc Mélenchon. Mapa: Ryse93 — Travail personnel, CC BY-SA 4.0.

Candidato a reeleição, Macron obteve melhor resultado em grandes cidades como Paris e Lyon além de médios centros urbanos, sobretudo no oeste. É um desempenho bastante semelhante aos redutos conquistados pelo atual presidente na eleição passada, em 2017.

A nacionalista Le Pen, por outro lado, venceu o primeiro turno principalmente na região rural francesa, no extremo norte e em todos os departamentos da França no Mediterrâneo. Esse resultado no litoral sul reforça a transição do eleitorado conservador católico da região, que antes votava na centro-direita tradicional, rumo à plataforma dura com a migração e outras questões culturais do partido de Le Pen, o Rassemblement National (Agrupamento Nacional, em uma tradução aproximada).

Vale notar o desempenho de Jean-Luc Mélenchon, candidato progressista terceiro colocado no primeiro turno. Ele venceu em sete das 13 capitais regionais da França, incluindo Marselha, a segunda maior cidade francesa, e nos departamentos da periferia de Paris.

Cartazes com os pôsteres de campanha dos candidatos a presidente da França em Noyarey, antes do primeiro turno. Foto: Jean-Paul Corlin — Travail personnel, CC BY-SA 4.0

Em quais cidades eles foram mais votados?

Embora nenhum candidato tenha alcançado 30% dos votos válidos no primeiro turno da eleição presidencial da França, os três mais bem votados obtiveram percentuais altos em seus tradicionais redutos. Isso ocorreu principalmente em cidades pequenas onde há um baixíssimo número de eleitores — afinal, qualquer disparidade fica percentualmente mais enfatizada em localidades tão pequenas assim.

Veja abaixo as pequenas cidades onde Macron, Le Pen e Mélenchon obtiveram os melhores percentuais no primeiro turno.

Emmanuel Macron — Bigorno

Igreja Santa Maria Assunta, em Bigorno (França). Pierre Bona — Travail personnel, CC BY-SA 3.0

O atual presidente conseguiu 77,46% dos votos válidos dos eleitores da comuna de Bigorno, na ilha da Córsega. Ao todo, foram 55 votos para Macron, contra cinco de Mélenchon e quatro de Le Pen. Juntos, os demais candidatos só conseguiram sete votos.

Bigorno é uma pequena comuna rural no norte da Córsega cuja população não chega a 100 pessoas. A vitória de Macron por lá destoa de um padrão observado no restante da França: o político centrista venceu em uma localidade do interior bastante ruralizada, enquanto Le Pen obteve a maioria dos votos em Ajaccio, que é a capital e maior cidade da ilha. Ao redor da França, o que se viu foi o contrário: vitória de Macron ou de Mélenchon no principal centro urbano, com predomínio lepenista nas áreas rurais.

Em Bigorno, Macron possivelmente se beneficiou do apoio do prefeito, Cristophe Graziani. Ele é do mesmo partido do presidente, o centrista La République En Marche (A República Avança, em uma tradução livre). Graziani, de apenas 31 anos, é neto do ex-prefeito da cidade, René Graziani.

Marine Le Pen — Hardecourt-aux-Bois

Entrada da comuna de Hardecourt-aux-Bois, no norte da França. René Hourdry — Travail personnel, CC BY-SA 4.0.

Le Pen chegou a 78% dos votos da pequena Hardecourt-aux-Bois, no departamento de Somme, no extremo norte da França. A candidata da oposição conseguiu 39 votos contra apenas três de Macron e três de Éric Zemmour, também do campo ultranacionalista do qual o lepenismo faz parte. Os demais candidatos, somados, só chegaram a cinco votos.

A 151 km de Paris, Hardecourt-aux-Bois faz parte da região Altos da França, que tem sido um reduto lepenista nas últimas eleições. Trata-se de uma parte empobrecida do país, onde questões relativas ao emprego e ao poder de compra ganharam força recentemente. Estima-se que 10% da população regional viva abaixo da linha de pobreza, segundo dados de 2021.

Hardecourt-aux-Bois é uma das dezenas de pequenas comunas rurais dos Altos da França, também com uma população total menor do que 100 habitantes. Fica relativamente próximo à fronteira com a Bélgica, a apenas cerca de 80 km do limite entre os dois países. Curiosamente, a União Europeia — contra a qual o partido lepenista adota duros discursos — tem justamente Bruxelas, a capital belga, como uma das principais sedes.

Jean-Luc Mélenchon — Apatou

Pequenas embarcações servem como táxis em Apatou, no oeste da Guiana Francesa. Foto: Polo973 — APN, CC BY-SA 3.0

Foi a um oceano de distância de Paris que Mélechon obteve seu melhor percentual no primeiro turno das eleições: em Apatou, na Guiana Francesa, onde ele conseguiu 74,53% dos votos válidos, ou seja, 275 no total. Macron ficou com 17,52% e Le Pen, apenas 4,88% na pequena localidade de cerca de seis mil habitantes.

O resultado em Apatou não surpreende porque a Guiana Francesa como um todo rendeu a Mélenchon a maior parte de seus votos. Ele chegou à marca de 50,59% dos votos válidos no território ultramarino sul-americano.

Além da Guiana Francesa, Mélechon ultrapassou os 50% dos votos válidos nos departamentos ultramarinos de Guadalupe e Martinica, ambos no Caribe. Ele também obteve a maioria dos votos em Saint-Martin (Caribe), Saint-Pierre-et-Miquelon (América do Norte) e na ilha de Reunião (África).

Os territórios franceses fora da Europa também passaram por manifestações contra o governo de Macron em 2019, no movimento conhecido como “coletes amerelos” — protestos que levaram à luz temas como a perda do poder de compra dos franceses e o encarecimento dos combustíveis. No entanto, enquanto na França rural esse movimento fortaleceu a direita de Le Pen, o descontentamento entre os eleitores no Caribe pendeu à esquerda para estas eleições.

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